A neve caía fraca na janela do pequeno apartamento alugado no norte da cidade. A fumaça do cigarro se espalhava lentamente pelos cômodos enquanto a música cortava o silêncio bruscamente. Jenny, sentada no canto da sala, admirava um velho porta-retratos com a moldura ornamentada, que se encontrava sobre a mesa de vidro, com uma foto empoeirada de um casal aparentemente feliz. Ela cantarolava baixinho uma canção que divergia da que o stereo no canto do quarto gritava. O resto de dia se transformava em noite sem que ela percebesse, até que uma voz a despertou do torpor que a consumia a dias.
- Você nao vai me pedir desculpas?
- Não. - Jenny respondeu com um aceno de cabeça, como se quisesse afastar uma mosca particularmente insistente.
- Você deveria me pedir desculpas.
- Não. - ela repetiu, uma expressão assustada surgindo em seu rosto.
Seu cabelo ruivo caia sem vida em seu rosto, seus olhos inchados, como se ela tivesse chorado durante dias. Ela olhava para o vão da porta de entrada para seu quarto. O cigarro entre seus dedos estava prestes a cair, e ela nem perceberia.
- O que você fez foi errado Jenny.
- Eu não pude evitar, não pude.
- Peça desculpas Jenny, peça desculpas agora.
As lágrimas brotaram de seus olhos, e ela voltava a acenar a cabeça em uma negativa.
- Desculpe, desculpe - ela resmungava com a voz embargada.
- Não é o suficiente!
- Perdoe-me Keith, eu não queria ter feito isso... Você me pegou de surpresa e eu reagi, só isso.
- Você fez uma coisa horrível Jenny, e você tem que sofrer o que eu sofri.
- Não Keith, por favor!
- Sim Jenny - e ele se aproximou brandindo uma adaga prateada.
Os gritos da garota do terceiro andar poderiam ser ouvidos por todo o prédio, mas ninguém dava atenção. Afinal, não era a garota do terceiro andar - "Julie, não é?" - que tinha problemas com drogas? Não era ela que estava usando aquela tornozeleira da polícia?
O corpo de Jenny Morgan foi encontrado no dia seguinte, com uma série de cortes por toda a extensão dos braços, e um longo e profundo corte contornando seu pescoço. Uma carta escrita as pressas endereçada à mãe em cima da mesa de vidro, tendo o porta retratos antigo como peso de papel, confirmava o suícidio.